sábado, 31 de maio de 2025

Carvão

Não pertenço mais a você.

A inércia é o que me faz permanecer.

Partir tornou-se necessário.

Seguir outra direção,

buscando um reencontro.

Os dias já não são os mesmos.

Não há mais cor.

Desculpe,

mas, desta vez,

eu preciso ir.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Meio-fio


Caminhei por uma rua sem saída,
onde a infância assobiava dos muros.

Vultos passaram,
ecoando seus laços defeituosos.

O vento trazia poeira e solidão.

Então,
deslizei no concreto,
como quem tenta esquecer em movimento.

Mas um corpo cruzou meu caminho.
Logo,
a raiva saiu antes do juízo.

O mundo, injusto como é,
respondeu com ameaça.

Corri pelos telhados do medo,
carregando o peso do erro.

Na mão, o fogo 
no peito, a solidão.

Encontrei o engano no fim do caminho.

Os risos revelaram
o que minha alma  sempre escondeu:
— O vazio.

Ele me olhou, fingindo não entender,
e eu... fugi.
Como covarde que sou.


terça-feira, 20 de maio de 2025

Traços

Eu gostaria de estar aí,

nos seus braços… mas já não é possível.

O passado não retorna.

E relembrá-lo me mata —

Como pequenas doses de ricina.

Sinto uma dor insuportável ao reviver aquilo que não posso mais ter.

Foi uma partida brusca, sem um adeus…

E, desde então, recolho meus cacos todos os dias.

Mas é impossível consertar o que já quebrou.

Olhar as fotos, sentir,

perceber que… é cruel.

Prefiro partir a continuar sentir.

Meus gritos não são ouvidos.

Minhas lágrimas não cessam.

E eu não consigo parar...

De pensar.

Aguardar o que não volta

E morrer aos poucos.

Expresso

Querida Solidão, 

 Hoje, resolvi não ligar para você.

Você me pediu paz… e, sinceramente, até agora eu não consegui te dar isso. Talvez você tenha razão. Um tempo sozinho não faz mal a ninguém — mas o seu "um" me fez muito mal.

Eu entendo. Talvez doa mais em você… ou talvez não.

O mais difícil é olhar nos seus olhos e tentar compreender.
É difícil falar com você pelo telefone.
É impossível parar de pensar em você.

São tantas impossibilidades que fica difícil me expressar.

Mas talvez… você esteja certa.
Só que o tempo já não é tão amigo,
e meu coração já não é tão forte.

Não há para onde ir.
Ninguém parece me entender.
Nem minha mãe, que pensa na vida o dia inteiro.

E, mais uma vez, talvez você tenha razão sobre tudo isso que me confunde tanto.
Um tempo não faz mal a ninguém —
mas, para mim,
não faz nada bem.


Paragráfo


Não há solução naquilo que já está posto.
O tempo é apenas revelador, guiando-nos para o nada.
Respostas não serão encontradas.
O que me resta é aguardar: o fim, a escuridão.
Abraço a solidão.
Procuro conforto, mas só encontro dor.
O que resta é a dor; está frio, escuro,
não há ninguém.
Chegou a hora de partir – a corda, o banco,
não ouço, não vejo, não sinto.
Apesar do temor, o que me resta é partir,
ao meio.
Mesmo sem entender o porquê, enfim,
Talvez esse seja o meu fim. 

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Suavemente

Tão fria,

Como uma sexta-feira de inverno.

Novamente,

Se faz de amiga.

Sombria e inerte,

Seduzente.

A solidão.

É vazia.

Consigo,

Traz

A desesperança e a dor.

Não há resposta.

Não há saída.

Outra vez,

À deriva.

Já é tarde.

Está escuro.

O breu, o frio,

Demonstram que

Não há ninguém.

Apenas o silêncio, o vazio,

O nada.

domingo, 4 de maio de 2025

Cadeado

Eu me apaguei pensando em você,

talvez pela última vez...

desde a primeira

em que ouso lembrar.


Talvez você não veja,

não leia,

não guarde,

não se importe.


Mas sempre que meus olhos tocam o horizonte,

enxergam os seus

cravados nos meus —

mesmo ausentes.


A saudade,

velha assassina,

arde como veneno.

Ao menos alerta,

em silêncio,

que a dose que escolhi

pode me matar.