sexta-feira, 6 de junho de 2025

Putrefação


O reflexo no espelho

não fala mais minha língua.

Vejo um vulto,

mudo, tremendo —

pedindo socorro com os olhos

que ninguém quer ver.

Está só.

Na cova rasa da existência,

esperando o esquecimento

como quem espera alívio.

O odor não é de morte,

mas de ausência.

Não há cadáver,

há alma

vazando aos poucos

de um corpo que já não habita.

Liberta-se,

não com gestos —

mas com o silêncio

que consome por dentro.

A dor tem nome,

mas ninguém o pronuncia.

E o mundo segue,

indiferente.

Amargor

O nó retorna,

lento, faminto,

como neblina que engole o corpo por dentro.

Há escombros onde antes havia voz.

Caminho entre ruínas,

fingindo que há chão sob os pés.

O que resta são ecos.

Sombras de uma força inventada.

Mentiras que aprendi a chamar de esperança.

O fim não grita.

Ele sussurra.

E sussurra sempre.

A porta entreaberta espera.

Não há pressa.

Só vento —

e o vento sabe desfazer o que toca.

Eu sou o que sobra

depois que tudo já foi.


terça-feira, 3 de junho de 2025

Solúvel

A solidão,
como uma xícara de café amargo,
ameniza a dor.
Não ter a quem murmurar
facilita a existência —
Vazia e sem sentido.

Um cigarro a mais
não vai me matar.
Por mais que eu queira,
por mais que eu peça,
para minha infelicidade,
ainda respiro.

O inverno chegou com seu frio.
Já é noite, terça-feira.
E eu continuo a esperar
a hora de deixar de ser.

A inexistência cotidiana me faz refletir:
Devo continuar?
Não sei.
Apenas aguardo
o fim.
Que venha breve —
Que seja breve.
Já é tarde,
e eu...
Já não posso mais esperar.