sexta-feira, 6 de junho de 2025

Putrefação


O reflexo no espelho

não fala mais minha língua.

Vejo um vulto,

mudo, tremendo —

pedindo socorro com os olhos

que ninguém quer ver.

Está só.

Na cova rasa da existência,

esperando o esquecimento

como quem espera alívio.

O odor não é de morte,

mas de ausência.

Não há cadáver,

há alma

vazando aos poucos

de um corpo que já não habita.

Liberta-se,

não com gestos —

mas com o silêncio

que consome por dentro.

A dor tem nome,

mas ninguém o pronuncia.

E o mundo segue,

indiferente.

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