sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Natal



A família não se vê,
não se sente,
não existe.
São apenas vozes distantes
que o tempo apagou.

Abraços vazios,
carne fria.
Não há calor,
nem fome,
só o hábito de mastigar o nada.

As luzes piscam.
Sinalizam o quê?
Nada.
A escuridão permanece.

Quem ama aqui?
Ninguém.
Nem os olhares se encontram.

Amigos secretos,
tão secretos
que já se esqueceram.
Não há amizade,
só conveniência.

Compaixão?
Não sobra.
Foi enterrada com as memórias
que ninguém quis guardar.

A árvore está morta.
Sem folhas,
sem cor,
sem vida.
Como tudo ao redor.

Amor... tem?
Não.
Só restos,
esquecidos em copos
e garrafas vazias.

É meia-noite.
O silêncio corta o ar.
O tempo segue,
indiferente ao nosso cansaço.

Feliz Natal?
É só mais uma frase,
vazia,
como nós.



Colateral

Insignificante ausência
Ninguém sente, ninguém vê

O ser Invisível, instável, inaldivel


Suplicando por socorro


Partiu sem volta 

Com revolta

Alguém vê?


As gotas 

Caindo Lentamente
Escorregando
Até
A Imóvel e solitária
Escuridão

Há Deus?


quem?


não há!


Há dor
Muita dor

Pode ser ?


Chuva

Não há o que fazer
quando as luzes se apagam,
e as vozes cessam no vácuo.

Não há ninguém,
não há sonhos,
não há nada.

A vida —
não passa de um acaso
que tropeça no escuro.

A batalha, antes desejada,
hoje jaz esquecida.

A chuva que corre
não alivia:
machuca, fere, sangra.

Pensei mil vezes,
mas nunca cheguei
a lugar algum.

Não existe compreensão.
Tudo em mim é ruído —
complexo demais,
estranho demais.

Mas, ainda assim,
me julgam sem ver
o que habita em mim.

Não posso crer
que o vazio me basta,
mas, infelizmente,
é o que me resta.

Não desejo mais estar aqui,
mas a saída de emergência
está apagada.

Está tudo escuro.
Talvez esse seja
o meu fim.

Enfim, acabou —
como o silêncio,
como o pôr do sol:

esfriou, partiu,
deixou de existir.