sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Sexta

Disseram que, depois da tempestade, viria a bonança.

Mentiram!

O que veio foi outra tempestade:

Com céu rasgado por raios,

trovões que fazem o chão tremer,

E o vento violento

Traz consigo 

O medo de perder o pouco que ainda insiste em existir.

Mas logo me dou conta:

nunca houve muito a perder.

Nunca houve nada.

Eu sou nada.

Apenas mais um corpo atravessando o tempo.

Então, fico em silêncio.

Ouvindo a chuva bater no telhado

como se quisesse entrar.

Observando os reflexos tortos dos céus,

o clarão breve dos relâmpagos,

o barulho seco do mundo desabando lá fora.

É noite.

Sexta-feira.

O mundo continua girando

enquanto algo dentro de mim se apaga

devagar.


O medo, que antes me corroía, enfraquece.

Não porque tudo melhorou,

mas porque já não me importo em temer.

Não há nada que possa assustar

quando nada mais é realmente meu.

A chuva cai.

O vento quebra galhos.

As árvores resistem até onde podem

Como nós.

A natureza não consola.

Ela apenas acontece.

E talvez seja isso:

somos feitos do mesmo caos,

da mesma violência silenciosa,

da mesma passagem breve.

Que a tempestade.

No fim, não há promessa.

Não há bonança.

Só resta esperar,

enquanto o céu desaba,

e aceitar que a tempestade

nunca foi algo fora de nós.

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